À mercê do mercado de trabalho

Por Yan Cattani/Flávio Calife

A rápida piora do desemprego foi notável em 2015 e, infelizmente, seus efeitos ainda não terminaram. A cessão abrupta dos rendimentos dos trabalhadores teve como efeito imediato um corte no orçamento doméstico, obrigando as famílias a reduzirem seu consumo e, não raro, a protelarem o pagamento de suas dívidas. De fato, no primeiro trimestre deste ano uma pesquisa realizada pela Boa Vista SCPC mostrou que 41% dos inadimplentes apontaram o desemprego como principal motivo de atraso nos pagamentos, contra 35% dos respondentes de um ano atrás. A queda na renda como causa subiu de 11% para 18% no mesmo período.

Esse movimento de aumento da inadimplência vem sendo acelerado nos últimos meses. De acordo com o indicador de Registros de Inadimplência divulgado hoje pela Boa Vista SCPC, a inadimplência do consumidor obteve elevação de 5,8% no primeiro trimestre do ano quando comparado ao mesmo período de 2015. Esse número só não foi pior porque a média brasileira vem sendo puxada para baixo basicamente pelos resultados da região sul, que foram negativos nos valores acumulados no ano (-0,5%), mas que deverão possivelmente apresentar inversão da tendência nas próximas aferições. Mantida a base de comparação, a inadimplência das demais regiões já vem crescendo próxima ao vivenciado no último pico da inadimplência (no início de 2011), com Centro-Oeste subindo 9,2%, Norte 6,7%, Nordeste e Sudeste 6,8% e 6,2%, respectivamente.

A diferença fundamental entre os dois períodos é que em 2011/2012 o crescimento da inadimplência foi causado essencialmente pela rápida e elevada expansão do crédito dos anos anteriores, principalmente aquele para a aquisição de veículos, e o mercado de trabalho apresentava uma sensível melhora, com taxas de desemprego em queda e crescimento real dos rendimentos. Naquele momento grande parte dos consumidores apontavam o descontrole financeiro como causa da inadimplência, evidência do uso excessivo do crédito. Esse número chegou a 30% das citações e hoje não passa de 15%.

Mesmo com a atual demanda do consumidor por crédito em queda, enquanto o mercado de trabalho não efetivar todos seus ajustes, seja por meio do desemprego ou por meio da diminuição real dos salários, sentiremos os efeitos deletérios sobre mercado de crédito, que neste momento está à mercê do mercado de trabalho.

 

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