BC de mãos atadas

Por Yan Cattani, da área de Indicadores e Estudos Econômicos da Boa Vista SCPC

A divulgação do IPCA na semana passada causou grande revisão por parte do mercado financeiro com relação às expectativas de inflação para este ano, conforme nos mostrou a pesquisa Focus do Banco Central (BC). A inflação de janeiro obteve variação de 1,24%, e apesar de já possuir sazonalidade desfavorável no mês (gastos escolares, viagens e habitação), os reajustes das categorias dos chamados “preços administrados” – em especial para tarifas de ônibus, combustíveis e energia elétrica – impactaram mais fortemente o índice agregado. Com este resultado, o Focus de hoje (relativo à primeira semana de fevereiro) captou o resultado negativo, demonstrando maior pessimismo através do aumento das projeções para o IPCA de 2015 em 0,14 p.p., atingindo 7,15%. O estouro do teto da meta de inflação já é dada como certo. Mas afinal, o BC nada pode fazer para amenizar a situação?

A resposta é: infelizmente nada. A dinâmica da inflação atual é resultante de um desajuste verificado pelo lado da oferta no mercado de bens e serviços da economia, que através do aumento das tarifas dos bens administrados, eleva a margem das empresas, mas consequentemente, os custos para os consumidores. O BC nesta situação nada pode fazer: a instituição atua impactando os agentes que procuram moeda (crédito), sendo eficaz, portanto, para sanar distúrbios ocorridos pelo lado da demanda econômica, como quando há excesso de consumo.

Em 2010, quando houve os primeiros diagnósticos de um descompasso entre o consumo e o resto das atividades econômicas, pouco foi feito pela autoridade monetária. Repetidamente em 2011. Nos anos seguintes, a elevação da Selic ou ocorreu de maneira defasada ou com pouca austeridade na escalada dos juros; não se almejava a meta, e sim o limite superior da meta. Agora o desajuste provocado pelo congelamento de preços no passado começa a cobrar seu preço. E o BC, infelizmente, de mãos atadas, nada pode fazer. Um aumento de juros neste momento somente agravaria a já debilitada atividade econômica. Resta-nos somente esperar.

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