Juros sobem para compensar ausência de política fiscal ativa

Por Paulo Rabello de Castro, da RC Consultores

Confirmando nossas projeções, o BC promoveu mais um aperto no custo financeiro de rolagem da dívida pública, afetando o custo financeiro também para as empresas privadas e o crédito de consumo em geral. O Comitê de Política Monetária (COPOM) veio a público justificando o novo aperto, desta vez unânime, como necessidade decorrente do momento inflacionário atual, em que os preços livres correm bem acima do teto da meta (em torno de 7,5% em média) enquanto os preços monitorados, inclusive combustíveis, deverão passar por reajustes nos próximos meses, agravando a trajetória inflacionária. Com o aumento de meio ponto percentual, a nova taxa SELIC é agora de 9,5%, contra uma inflação acumulada em 12 meses de 5,86%, pela primeira vez abaixo dos 6%, conforme previsto por RC Consultores.

Especula-se no mercado que o BC promoverá na sua última reunião do COPOM, em 26 de novembro, uma nova alta de meio ponto, trazendo a SELIC para 10%, um claro recado de que não compactua com a inflação próxima ao limite superior da meta. De fato, o BC parece estar fazendo outro trabalho, o de compensar a política fiscal deficitária e acomodatícia do governo, esta sim responsável pelo PIB fraco de 2013 e pelo crescente e perigoso endividamento das famílias. É a velha política de subir juros para compensar a ausência de uma política mais séria de controle dos gastos públicos correntes. Estes estão correndo na faixa de 12% sobre o ano anterior, com o custeio corrente em níveis de 15% de variação, ou seja, o governo central vem gastando em velocidade muito superior à inflação corrente mais o PIB real projetado, forçando o aumento do consumo privado sem a compatível oferta interna de bens. O resultado é o aumento do déficit externo em conta corrente, outra variável que o BC quer controlar indiretamente. Conclusão: não é exatamente contra uma inflação fora de controle que o BC eleva juros a dois dígitos e, sim, contra o gasto privado, das famílias e empresas, que devem apertar cintos para que o governo não precise fazer o mesmo sacrifício.

Ed.289

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