Novo ataque de nervos nos emergentes derruba Bovespa

Por Paulo Rabello de Castro, da RC Consultores

Com um recuo de 3,1% ontem, a Bovespa deu o tom do extremo mau humor dos investidores diante da dificuldade da gestão diária da política econômica local. Mas o mau humor perpassa todo o espectro das bolsas mundiais, inclusive com ajustes não esperados pelos otimistas, marcando a queda de 2,1% do Dow Jones em Nova York e de 2,6% da Nasdaq. O nome genérico desse tipo de reação coletiva é aversão ao risco, que produz como resultado clássico uma fuga de capitais das periferias para o centro, como um choque de adrenalina. O mercado americano se beneficia de uma demanda extra por papéis do governo, no momento em que as compras oficiais diminuem em intensidade. Isso ajuda a segurar o efeito de recuo de preços nos papéis, que têm obtido até valorizações inesperadas nos últimos dias. Em compensação, os títulos de renda fixa de todos os governos de países emergentes sofrem com pesadas desvalorizações, traduzindo-se em leituras de aumento do risco-país. O Brasil não é exceção. A consequência mais corriqueira no mercado local é o lento deslizar da taxa de câmbio, que pode chegar a R$ 2,50 nos próximos pregões.

Todas as más notícias possíveis continuarão fluindo na imprensa local nos próximos dias. O alerta feito por esta coluna durante todo o ano passado e em 2012 sobre a inevitável deterioração da posição competitiva da indústria brasileira, bem como do inevitável fim da bonança das commodities, ao mesmo tempo sobre a responsabilidade duvidosa do governo em continuar gastando correntemente muito acima da possibilidade de financiamento por uma sociedade super-tributada, nada disso encontrou eco, muito menos na opinião super-otimista dos mercados locais. Agora que a maré virou, estão quase todos à beira de um ataque de nervos. No entanto não enfrentamos nada que não se possa corrigir com diligência e senso do que se precisa fazer. Mas essas são duas qualidades escassas no momento. E o oposicionismo típico de um ano eleitoral tampouco ajuda a se estabelecer um debate útil. Todos se excusam de tudo e ficam na retranca. Até o clima está na retranca e promete criar um belo problema adicional para a gestão do curto prazo do governo. O Focus do Banco Central, medida das opiniões de mercado, vem puxando o PIB projetado para menos de 2% e puxará a inflação para mais de 6%.

Ed.357

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