Bernanke deixa o FED com legado de recuperação da crise

Por Paulo Rabello de Castro, da RC Consultores

Após dois mandatos à frente do FED, o professor Ben Bernanke deixará o Federal Reserve e assumirá Janet Yellen, a primeira “chairwoman” a ocupar aquele cargo no supremo comando da economia monetária dos EUA e, por extensão, também do mundo. Bernanke sai com um coeficiente de aprovação positivo, mas modesto, entre os que apoiam ou criticam suas iniciativas ousadas de sair comprando títulos no mercado durante a crise, e ainda agora, em enormes quantidades, inclusive papéis de duvidosa qualidade de crédito, a fim de estabilizar as condições financeiras do cambaleante sistema bancário local. Apesar dessas providências, no período Bernanke, muitas centenas de instituições financeiras de médio e pequeno porte fecharam as portas nos EUA. A hecatombe ficou marcada pela quebra do Lehman Brothers, mas o que de fato ocorreu foi incomparavelmente maior e mais sério. E tampouco terminou, já que boa parte dos passivos regurgitados pelos bancos foi parar nos tesouros dos governos dos EUA e da Europa.

Ben Bernanke empregou mais de US$ 2 trilhões para estabilizar os mercados e retomar a confiança. É um trabalho ainda inacabado. A boa notícia é que a demanda nos EUA dá sinais de recuperação e a produção tem crescido num ritmo de cerca de 3% ao ano nos últimos trimestres. Mas boa parte dessa recuperação advém de dois estímulos casados que – ao que se supõe – não vão estar mais lá em 2014: a injeção de US$85 bilhões (já reduzida a US$65 bi) que o FED tem feito todos os meses, e a demanda dos países emergentes pelos produtos americanos, que agora tende a minguar com as desvalorizações de suas moedas. Por isso, a recuperação anunciada e comemorada nos mercados maduros vem cedo demais e é ameaçada pelas severas medidas de contenção e aumento de juros deflagrados, estes dias, por vários países em conjunto, como Turquia, Índia, África do Sul, que seguem os apertos no Brasil e na China. O presidente do Banco Central da Índia passou um recado ontem: a política monetária dos EUA é egoísta e poderá trazer sérios problemas de coordenação para a frágil recuperação mundial.

Ed.355

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