Último bastião do crédito

Com pequenas exceções, o cenário de crédito não consegue mais se livrar dos efeitos da deterioração do cenário macroeconômico. Os primeiros quatro meses de 2015 mostram que a desaceleração do crescimento do saldo do crédito é apenas um dos problemas a atormentar famílias e empresas. É o que se observa na Nota de Política Monetária e Creditícia do Banco Central, divulgada hoje. O saldo agora cresce a um ritmo de 10% ao ano e deve fechar o ano abaixo dos dois dígitos.

A grande exceção e boa notícia é que a inadimplência do consumidor continua apresentando estabilidade e encontra-se no mesmo patamar de dezembro de 2014. Os empresários, ao contrário, não podem dizer o mesmo. A inadimplência total com recursos livres aumentou 0,2 p.p. no mês e a variação no ano para as empresas já mostra um aumento de 0,5 p.p. Se de um lado os consumidores se contorcem para ajustar seus orçamentos e contrair menos dívidas, as empresas sofrem com a redução das receitas e com as altas taxas de financiamento para o capital de giro.

O maior problema para os consumidores talvez seja mesmo a taxa de juros, que segue em elevação ininterrupta e já atinge o maior valor da série iniciada em março de 2011. É verdade que as empresas já contam com um aumento de 2,4 p.p. no ano, mas o aumento da taxa de juros com recursos livres para as famílias já chega a 6,5 p.p. em relação a dezembro – só em abril o acréscimo foi de 1,7 p.p. Ao contrário do esperado, a política monetária restritiva não foi a única responsável pelo aumento da taxa de juros final – a taxa de captação aumentou apenas 0,5 p.p. no ano –, mas a recomposição dos spreads foi mais significante, com um aumento de 6,0 p.p.

Com o mercado de trabalho desgastado, o ajuste fiscal em andamento e o ciclo de aperto monetário ainda incompleto, é difícil imaginar que a inadimplência do consumidor continue resistindo solitariamente. O indicador de risco de crédito do consumidor da Boa Vista SCPC também aponta deterioração na qualidade do crédito às famílias, que deve se refletir em piora do cenário provavelmente no segundo semestre. A luta tem sido árdua, mas a estabilidade da inadimplência parece estar chegando ao fim.

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