Um tempo no consumo

Nas últimas duas décadas, o Brasil passou por um processo no qual as classes mais baixas conseguiram atingir uma inclusão inédita no mercado de consumo, aumentando significativamente os padrões de acesso aos diversos tipos de bens. Sem dúvida, contribuíram positivamente para isso a perenidade das políticas macroeconômicas e, sobretudo, a alavancagem do consumo pelo crédito.

Atualmente, contudo, observamos uma reversão de alguns destes fatores favoráveis. A grande pressão inflacionária e baixa confiança na economia têm mostrado grandes impactos negativos nas vendas varejistas. A fraca atividade do varejo reflete-se também na gradual deterioração da atividade econômica. É um ciclo que se retroalimenta.

Tal cenário tende a forçar mudanças significativas nos hábitos de consumo dos indivíduos. Especialmente entre 2014 e 2015, notamos um consumidor cada vez mais cauteloso e avesso às contrações de novos empréstimos, fato evidenciado pela queda do Indicador de Demanda por Crédito das famílias da Boa Vista SCPC. A Pesquisa Mensal do Comércio, divulgada pelo IBGE hoje, registrou a pior queda (-3,1%) na comparação interanual para o mês de fevereiro desde 2001 e o pior resultado interanual desde agosto de 2003. No acumulado do bimestre, o volume de vendas no varejo caiu 1,2%, e considerando as vendas de veículos e materiais de construção, as chamadas “vendas ampliadas”, o cenário complica-se ainda mais com 7,5% de queda.

Pela frente, o cenário continua incerto, o consumidor deve dar um tempo nos gastos e preocupar-se mais com seu orçamento. O setor varejista continuará a lidar com alto nível de preços, restrições ao crédito e piora do mercado de trabalho – que já tem apresentado elevação do desemprego e desaceleração acentuada dos rendimentos reais. Provavelmente, será um novo recorde negativo a ser vivenciado pelo setor, ou na melhor das hipóteses, observaremos uma estabilidade nas vendas varejistas no ano.

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