Os BRICS são mais que uma sigla?

Por José Valter Martins de Almeida, da RC Consultores

Convenientemente agendado para o final da Copa do Mundo, os líderes dos países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) começam hoje mais uma reunião, cuja pauta principal é a criação de um banco de desenvolvimento que financiará não só os BRICS como outros países emergentes, projetos de infraestrutura e industrialização. Além do banco, criarão um fundo de reservas que permitirá aos BRICS e outros países recorrer em caso de crise de balanço de pagamentos ou ameaças às suas moedas. O novo banco terá capital inicial de US$ 50 bilhões e o fundo deverá contar com US$ 100 bilhões.

Embora seja interessante a criação de um projeto que se apresente como alternativa ao Banco Mundial e ao FMI, a principal questão a responder será como os cinco integrantes conseguirão se entender em torno do projeto comum. Os cinco sócios têm pouco em comum, ao contrário de muitos blocos multilaterais. As variações de tamanho e importância entre eles são muito grandes, o que sugere que tentativas de igualdade na partilha do poder podem esbarrar em grandes dificuldades. Na qualidade do maior país credor do grupo (41%), boa parte do ônus deverá recair sobre a China. Mas Pequim não está acostumada a agir como força multilateral, o que pode por em xeque a capacidade de exercer a liderança eficaz. Quanto de concessões a China seria capaz de fazer de seus próprios interesses em prol do grupo? O FMI e o Banco Mundial foram originalmente criados tendo como principal missão a estabilidade financeira, emprego e desenvolvimento. Esse foco, no entanto, descarrilhou no final do século XX. Ambas instituições não conseguiram prever a crise financeira global de 2008. O banco dos BRICS e o Fundo se defrontam com muitos desafios e os cinco membros ainda não provaram sua capacidade de se unir para formar algo maior que uma sigla idealizada pelo Goldman Sachs.

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