[ANÁLISE] Tendência de aumento do endividamento, comprometimento de renda e inadimplência das pessoas físicas

Não é de hoje que a equipe econômica da Boa Vista vem alertando a respeito da deterioração do cenário para a inadimplência. Em artigo de junho deste ano, os economistas já chamavam atenção para o aumento contínuo do endividamento e do comprometimento de renda.

“O cenário ainda não é alarmante, mas a tendência de alta permanece. O aumento das concessões, ante uma recuperação lenta da renda e do emprego, tem resultado em maior endividamento e comprometimento dos recursos das famílias com o pagamento de dívidas. A inadimplência, com isto, já vem crescendo neste ano”, dizem os economistas ao analisar as estatísticas de crédito de setembro, divulgadas hoje, 25, pelo Banco Central (BC).

Em setembro, a taxa de inadimplência das operações de crédito com recursos livres ficou em 5%, ante 4,7% em fevereiro deste ano, quando atingiu o menor patamar da série histórica. “É um aumento pequeno, é verdade, mas está sendo puxado pelas linhas rotativas, com juros mais altos”, argumentam.

A taxa de inadimplência das operações de cheque especial passou de 13,2% para 15,6% entre fevereiro e setembro de 2019. A do cartão de crédito (que inclui as operações de crédito rotativo, parcelado com e sem juros e compras em uma parcela), por sua vez, passou de 5,8% para 6,4% no mesmo período.

Embora as concessões de crédito nestas modalidades ainda estejam crescendo bem menos do que as demais, ditas não rotativas, o saldo das modalidades rotativas apresentou aumento maior nos últimos três meses. Na comparação com setembro do ano passado, o saldo das operações de crédito rotativo (cheque especial e cartão de crédito) cresceu 18,9%, contra 15,5% das operações de crédito não rotativo.

Se as concessões de crédito rotativo crescem menos, a explicação para o aumento do saldo destas operações só pode ser uma: as taxas de juros.

“O Banco Central adotou medidas para tentar conter o endividamento e as taxas de juros nestas linhas, limitando o prazo e exigindo dos bancos a oferta de empréstimos com taxas menores. O problema é que a demanda por crédito nestas linhas é mais inelástica, ou seja, não é tão sensível às taxas de juros. Quando o consumidor recorre ao cheque especial ou ao rotativo do cartão de crédito, é porque já perdeu o controle do orçamento. Tratam-se de linhas emergenciais”, analisam os economistas da Boa Vista.

De fato, nota-se crescimento da taxa de juros médias cobrada no rotativo do cartão de crédito, que atingiu a mínima recente de 11,6% ao mês em julho de 2018, mas se encontra atualmente em 12,4%. A taxa de juros das compras parceladas com juros no cartão também subiu no ano (de 8,2% em dezembro de 2018 para 8,9% em setembro deste ano).

“O desemprego segue elevado e a queda recente foi resultado do aumento das ocupações precárias, sem carteira e por conta própria. De maneira geral a situação da economia está melhor do que no passado recente, as perspectivas também melhoraram com a quedas dos juros básicos e a liberação dos recursos do FGTS, mas a situação de muitas famílias ainda é bastante delicada, elas enfrentam dificuldade para manter as contas básicas em dia e acabam recorrendo a linhas emergenciais”, concluem os economistas.

Para embasar os argumentos, citam ainda os dados da própria Boa Vista de registros e exclusão do cadastro de negativados. Enquanto os registros de inadimplência recuaram 3% em 12 meses até setembro, os de recuperação diminuíram 3,3%. Ou seja, menos consumidores estão ficando inadimplentes, mas, entre os inadimplentes, menos estão conseguindo reequilibrar as contas e regularizam sua situação.


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