Por Paulo Rabello de Castro, da RC Consultores
Uma empresa de desenvolvimento imobiliário no Sul da China, na cidade de Fenghua, acaba de dar um calote a bancos e a fornecedores em valor próximo a 3,5 bilhões de Yuan (aproximadamente US$ 600 milhões). Seus donos foram detidos pelas autoridades locais sob alegação de terem montado uma operação fraudulenta. A empresa, Zhejiang Xingrun, dificilmente conseguirá saldar seus compromissos vendendo os ativos existentes. A China vive o que seria a "parada final" da sua bolha imobiliária, quando os preços do metro quadrado ainda resistem à baixa mas as transações novas só acontecem com valores em queda. Chama atenção a declaração do primeiro ministro chinês, Li Keqiang, na semana passada, a propósito de outro calote, desta vez o primeiro em títulos emitidos por uma corporação não financeira, a empresa de placas solares Chaori. Ele afirmou que, daqui para frente, defaults corporativos em títulos de crédito não serão incomuns.
A China tem um plano em marcha de mudar seu sistema financeiro fechado e centralmente manipulado para um regime mais aberto e onde os riscos de não pagamento passem a ser uma variável relevante na concessão de crédito. Até agora foi o oposto, o governo cuidando de cobrir a grande maioria dos calotes e, certamente, salvar todos que pudessem ter efeito em cadeia dentro do sistema bancário local. A mudança faz parte da constatação de que a bolha de crédito e, portanto, de preços, é decorrência do crédito ilimitado a empresas, na presunção de que o governo resgatará sempre os credores. Com isso, nos últimos cinco anos, o crédito total (excluindo os concedidos fora do sistema oficial) saltou de 130 para 210% do PIB chinês. É uma espiral que fatalmente trará um ajustamento abrupto, e consequência política séria para o governo. Quanto mais o governo adiar esse ajuste, mais incontrolável será. Outro dano: o estouro da bolha imobiliária nos preços de commodities, que afetará os exportadores brasileiros em proporção dramática. Já se sente esse aperto em minério de ferro, cobre, cimento e outros da construção. Ainda não bateu nos agrícolas, felizmente. Mas até quando?
Ed.385