Sem auxílio e com novas restrições, varejo está em xeque

 

Análise dos economistas da Boa Vista sobre a PMC, do IBGE.

 

Após surpreender o mercado negativamente ao registrar queda superior a 6% em dezembro, na comparação mensal dos dados dessazonalizados, o varejo voltou a cair em janeiro, agora em 0,2%, de acordo com os dados da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada nesta sexta-feira, pelo IBGE.

Quando os dados de dezembro foram divulgados, o mau desempenho do varejo foi, por muitos, justificado pela proximidade do fim do programa de auxílio emergencial. Desta forma, é razoável algum nível de pessimismo em relação às próximas publicações sobre o desempenho do varejo, dado que já se passaram dois meses completos (janeiro e fevereiro) sem o suporte do auxílio emergencial. Além disso, pensando no mês de março, deve haver um impacto ainda maior, em função da adoção de medidas de isolamento ainda mais restritivas em diversas localidades, para combater o agravamento da pandemia.

Dentre os destaques dos dados de janeiro, o segmento de “Tecidos, Vestuário e Calçados” caiu 8,2% e o segmento de “Móveis e Eletrodomésticos”, 5,9%. Além disso, a queda de 1,2% no segmento de “Super e Hipermercados” também chama atenção, mostrando que o bom desempenho deste segmento tinha clara relação com o auxílio emergencial.

Ficou claro ao longo do ano passado que o auxílio emergencial sustentou as vendas do varejo num patamar acima do esperado. Agora, contudo, mesmo com a retomada do programa, seu efeito sobre o comércio deverá ser reduzido, uma vez que o valor a ser pago será menor, assim como deve ser reduzido o número de pessoas elegíveis ao benefício.

Além disso, outro fator de suma importância deve pesar ainda mais sobre o varejo, o desemprego. O impacto real do aumento no número de desempregados provocado pelos impactos da crise do coronavírus foi mascarado, inicialmente, pelo auxílio emergencial. No entanto, o cenário atual é outro e a retomada no mercado de trabalho parece cada vez mais distante à medida que uma solução definitiva para a pandemia é prorrogada, em um processo de vacinação ainda lento.

Quanto mais o tempo passa, mais vulneráveis ficam as famílias e os negócios, sobretudo, os pequenos, uma combinação nociva ao varejo como um todo. Pode-se dizer que, enfim, o varejo está de frente com a crise.

A despeito da crescente relevância do e-commerce em relação ao total, evidentemente impulsionada pela crise, embora já fosse uma tendência esperada, no 1º trimestre de 2021 nem mesmo isso deverá aliviar os números finais do varejo, consequentemente, resultando numa desaceleração na curva de longo prazo medida pela variação acumulada em 12 meses, como fora observado nesta última aferição, bem como na anterior, ao passar de +1,2% para +1,0%.

No mais, é válido ainda ressaltar que a recente pressão sobre o preço dos combustíveis deve impactar as vendas no segmento, que sofrerá ainda com a menor circulação de veículos em função das medidas mais rígidas de combate ao coronavírus. Em janeiro, por exemplo, o segmento de “Combustíveis e lubrificantes” registrou queda de 0,1%.

Neste primeiro trimestre, o varejo se encontra numa situação similar ao início da pandemia: sem o auxílio emergencial, com restrições mais severas para o seu funcionamento e com o mercado de trabalho fragilizado. A situação é ainda agravada pelas pressões inflacionárias.

Isso tudo poderá resultar numa piora de outros fatores condicionantes, tais como a confiança e o crédito, de modo que o varejo deverá apresentar números mais fracos nas próximas aferições.


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