Ajuste mundial impõe pedágio maior ao Brasil

Por Paulo Rabello de Castro, da RC Consultores

O enorme mau humor dos mercados, espelhado na recente mididesvalorização, parece hiper-reação a uma condição estrutural de fraqueza do setor produtivo nacional. O Brasil já deveria saber, há anos, que os governos têm posto fora a oportunidade única de realizarmos a transformação brasileira na direção de mais investimentos, sobretudo privados. O real teve, desde maio, a pior queda entre os emergentes, com 19% de perda, contra 17% da rúpia indiana, 13,4% do rand Sul-africano ou 7,7% do peso argentino. Mas a comparação é algo injusta: desde o primeiro dia de janeiro, o Brasil não apresenta a queda mais acentuada. O real ficou no meio da lista sob pressão da saída de recursos dos mercados emergentes. As bolsas de países “paraísos” dos investidores mostram quedas fortes em seus índices.

O pedágio moral do Brasil é mais alto nesse momento por nossa culpa. Primeiro, por deixarmos o Brasil se tornar monodependente das commodities que exporta, quase todas sob forte pressão de baixa. Daí a queda do valor do real, que o modelo cambial da RC captura quando o índice brasileiro de commodities resvala para baixo. E continuará caindo. Maior ainda é a influência de erros de governança no modelo explicativo do câmbio. O nível de aprovação do governo Dilma, em forte queda mês passado, ajudou a explicar muito a queda do real. Isso não indica que a moeda continuará perdendo valor. A tendência normal do real seria reconquistar parte do valor perdido. Mas o próprio governo pode seguir atrapalhando. Quando supostos artífices do próximo programa de Dilma para 2015 deixam vazar que darão ênfase a mais impostos para fortalecer a capacidade do governo central de poder gastar mais não há bom humor que resista a tamanho despropósito.

Ed.253

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